O caminho para a saída da aldeia era uma linha reta, mas Kakashi fez um desvio. Um que o levou às entranhas de betão e aço do quartel-general de Konoha, a um nível subterrâneo onde o ar era frio e cheirava a desinfetante e a medo antigo. O Departamento de Tortura e Interrogação não era um lugar para despedidas. Era um lugar para finais. Talvez fosse apropriado.
Ibiki Morino esperava-o no seu escritório, uma sala tão austera e marcada como o próprio homem. As cicatrizes no rosto de Ibiki contavam histórias de segredos arrancados e lealdades quebradas. Ele e Kakashi partilhavam uma certa economia de palavras, um entendimento mútuo de que as coisas mais importantes eram frequentemente as que não se diziam.
"Hokage-sama disse que virias", disse Ibiki, a sua voz um raspar de gravilha. Não houve saudação. Não houve pergunta. Apenas um facto. Ele empurrou uma pasta fina pela superfície da sua secretária de metal. "Isto é teu."
Kakashi pegou na pasta. Era fria ao toque. "O que é?"
"Informação," respondeu Ibiki. "O que fazes com ela, é contigo. Ou com as tuas ordens." O seu olhar fixou-se em Kakashi por um momento, intenso, quase a desafiá-lo a mostrar uma fissura na sua fachada. "Às vezes, a parte mais difícil não é obter a informação, mas sim sobreviver a ela."
Kakashi não respondeu. Abriu a pasta. Dentro, havia várias folhas de papel, a transcrição de um interrogatório. No topo, o nome: Kaito, um samurai do País do Ferro capturado numa escaramuça perto da fronteira há três semanas. Kakashi lembrou-se vagamente do relatório. Uma pequena altercação, considerada insignificante na altura.
Ele começou a ler. A maior parte era o esperado: negações teimosas, declarações de lealdade ao seu General, Mifune, e desprezo pelos shinobi e pelas suas "táticas sem honra". Mas a meio da terceira página, um nome apareceu. *Oriole*.
**IBIKI:** Fala-nos da vossa fonte em Konoha. A informadora.
**KAITO:** (Cospe) Não sabes nada sobre honra. Ela não é uma "fonte". Ela não é uma das vossas ferramentas descartáveis.
**IBIKI:** Então o que é ela? Um nome numa folha de pagamento? Uma idealista iludida?
**KAITO:** (Ri, um som seco e áspero) Oriole não é uma espiã. É uma patriota. Ela vê o mundo como ele é, não como Konoha quer que seja. Ela compreende a fraqueza no coração da vossa chamada "Vontade de Fogo".
Kakashi sentiu um arrepio gélido descer-lhe pela espinha, um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura da sala. *Vontade de Fogo*. Lembrou-se de uma noite de verão, os dois sentados no telhado do seu apartamento, a olhar para as luzes da aldeia. Emi tinha apoiado a cabeça no seu ombro. "Às vezes," dissera ela, a sua voz suave contra o ruído dos grilos, "acho que a Vontade de Fogo é uma gaiola dourada. É tão bonita e tão forte que ninguém em Konoha consegue ver para além das suas grades." Ele tinha descartado o comentário como uma observação filosófica, o tipo de coisa que a sua mente curiosa e analítica produzia. Agora, as palavras dela ecoavam na boca de um inimigo.
Ele continuou a ler, as suas mãos a segurarem o papel com um pouco mais de força.
**IBIKI:** Que fraqueza?
**KAITO:** Vocês estão acorrentados ao vosso passado. A vossa lealdade é para com os mortos, para com uma ideia. Sacrificam o futuro em nome da tradição. Oriole compreende isto. Ela não nos dá apenas nomes e horários. Isso é para principiantes. Ela dá-nos a vossa psicologia. Ela mostra-nos as rachaduras na vossa armadura. Ela é a arquiteta da nossa vitória, e vocês nem sequer sabem que a guerra começou. Ela é fundamental.
*Arquiteta.* *Fundamental.* As palavras eram marteladas, cada uma um prego a fixar o caixão do que restava da sua Emi. O relatório que ele encontrara, com os movimentos das patrulhas, não era o fim. Era o começo. A ponta de um iceberg de traição tão massivo que ameaçava afundar muito mais do que apenas o seu coração. Era um ato de guerra estratégico. E a mulher que ele amava estava no centro de tudo.
A raiva que ele tinha tentado suprimir ameaçou transbordar, não uma fúria quente, mas um gelo cortante. A raiva de ter sido tão cego. E uma nova suspeita, mais sombria, tomou forma. Tsunade tinha-lhe dado a missão primeiro. Depois, e só depois, enviou-o para aqui. Para ler isto. Ela não lhe dera a informação completa desde o início. Ela deu-lhe a ordem, esperou que ele a aceitasse, que o shinobi nele tomasse o controlo. E então, entregou-lhe a faca e mostrou-lhe exatamente onde a torcer. Era um teste. Ou uma manipulação. Ou talvez, no mundo deles, não houvesse diferença.
Ele fechou a pasta com um movimento brusco. O som estalou no silêncio. Entregou-a de volta a Ibiki. O seu rosto, protegido pela máscara, era uma tela em branco.
"Obrigado," disse Kakashi. A palavra soou oca, estranha.
Ibiki pegou na pasta. "A captura dele foi há três semanas, Kakashi. O interrogatório terminou há duas. A informação não é nova." Ele fez uma pausa, deixando a implicação pairar no ar. "Certifica-te de que sabes por quem estás a lutar."
Não era um aviso. Era um diagnóstico.
Kakashi deu-lhe as costas e saiu, os seus passos a ecoarem no corredor de betão. A cada passo, sentia o peso da pequena fotografia retangular no bolso do seu colete. Já não era um mapa do inimigo. Era a planta de uma arma. A mulher que ria sob as lanternas de papel não era uma vítima, não era uma traidora relutante. Nas palavras do samurai, ela era uma patriota. Uma crente. Uma arquiteta. E ele, Hatake Kakashi, o shinobi de elite de Konoha, a personificação da Vontade de Fogo, não era o seu amante. Ele era o alvo. Ele era a gaiola dourada que ela estava determinada a desmontar, peça por peça.
Quando finalmente emergiu para a luz do fim da tarde, o sol poente pintava o céu de laranja e roxo, as cores de uma contusão. Os guardas no portão principal acenaram-lhe com a cabeça, um gesto de respeito que de repente pareceu deslocado. Ele estava a sair numa missão para caçar um dos seus, uma traidora de Konoha. Mas pela primeira vez, a questão que o assombrava não era se conseguiria fazê-lo.
Era se Emi o via não como a sua maior perda, mas como a sua maior vitória.