O ar no apartamento de Emi estava parado, pesado com o silêncio de uma semana. Poeira dançava nos feixes de luz que cortavam a penumbra da tarde, cada partícula uma pequena lápide para os dias em que ela estivera ausente. Kakashi fechou a porta atrás de si, o clique do trinco soando profano naquele santuário de abandono. Ele não deveria estar ali. Ela lhe dera uma chave para emergências, não para invasões movidas pela ansiedade. Mas a paciência, como a água num copo furado, tinha o seu limite.
"Visitar a família na capital", fora o que ela dissera. Um sorriso fácil, a promessa de trazer-lhe um doce qualquer de que ele nem gostava. Kakashi nunca se importou com os doces.
Ele passou os dedos pela superfície da pequena mesa de centro. Uma fina camada de poeira. Emi odiava poeira. Ao lado, o vaso com o lírio-da-paz que ele lhe dera estava com as folhas caídas, amareladas, a terra seca como um osso ao sol. Ela nunca deixaria uma planta morrer. Contou mentalmente as folhas murchas no chão. Seis. Uma sétima, partida ao meio. Um hábito estúpido, contar coisas. Costuras, telhas, folhas mortas. Anos na ANBU tinham-lhe deixado com mais manias do que cicatrizes visíveis.
O lugar tresandava a mentira. Uma mentira subtil, não o fedor acre de uma traição óbvia, mas o odor adocicado e enjoativo de algo que apodrece lentamente por baixo do soalho. E era por baixo do soalho que ele iria procurar. Ele próprio lhe ensinara a soltar aquela tábua específica no quarto, um esconderijo para coisas importantes, longe de olhares curiosos. Uma piada entre eles, o mestre do subterfúgio a partilhar um segredo com a civil que amava a ordem.
As suas luvas abafaram o som dos nós dos dedos a baterem na madeira. *TOC, toc, TOC*. Ali estava. Pressionou o ponto certo e a tábua cedeu com um gemido suave. O seu coração martelava uma batida lenta e pesada contra as costelas. Esperava uma carta, talvez. Uma explicação, um pedido de desculpas. Qualquer coisa que desse sentido àquela ausência que se tornara um buraco na sua rotina.
Não havia carta.
Havia um rolo de pergaminho, amarrado com um fio de couro preto. Não era um pergaminho de Konoha. O selo de cera era de um branco imaculado, gravado com o emblema do País do Ferro: três espadas cruzadas sobre uma montanha. As suas entranhas gelaram. O País do Ferro. Neutro. Samurai. O que diabos estava Emi a fazer com correspondência oficial de lá?
Com dedos que de repente pareciam grossos e desajeitados, ele partiu o selo. O papel era de alta qualidade, a caligrafia precisa, quase mecânica. Não era um relatório para ela, mas um relatório *dela*. Detalhava os movimentos de patrulha na fronteira do País do Fogo, horários de troca de guarda em postos avançados de Konoha, nomes de Jounin em missões de reconhecimento. Informação que só alguém com acesso a dados de nível A poderia compilar. Informação que poderia levar a uma emboscada. À morte de ninjas que ele conhecia. Homens e mulheres que ele liderara.
A traição não era mais um odor subtil. Era um grito, agudo e ensurdecedor, a ecoar no silêncio do apartamento. Ele enrolou o pergaminho de volta, o toque do papel contra a sua pele a queimar como gelo. Cada palavra lida era um golpe, desferido pela mão de uma mulher cujo riso, horas antes, ele ainda conseguia ouvir na sua memória.
Não havia tempo para a dor se instalar. A dor era um luxo. A raiva, uma distração. O que restava era o dever. Saiu do apartamento, trancando a porta como se pudesse selar o que acabara de descobrir lá dentro. O ar fresco da noite de Konoha nunca lhe parecera tão frio.
O escritório da Hokage estava, como sempre, a abarrotar de pilhas de documentos que ameaçavam uma avalanche iminente. Tsunade não levantou o olhar quando ele entrou, a sua atenção focada num relatório com o carimbo de Suna. Shizune fez uma vénia tensa e saiu, deixando Tonton a grunhir baixinho no seu cesto.
Kakashi colocou o pergaminho do País do Ferro na secretária de Tsunade, por cima do relatório de Suna. O som do rolo a bater na madeira foi o único ruído na sala por um longo momento.
Finalmente, ela ergueu os olhos. Não havia surpresa neles, apenas uma exaustão profunda e uma dureza que ele conhecia bem. Era a mesma expressão que ela usava quando tinha de enviar ninjas para a morte.
"Onde encontraste isto?", a sua voz era rouca, carregada pelo saqué e por noites sem dormir.
"No apartamento dela." A resposta saiu mais ríspida do que ele pretendia.
Tsunade pegou no pergaminho. Os seus dedos, capazes de partir rochas, desenrolaram-no com uma delicadeza surpreendente. Ela leu o conteúdo, o seu rosto uma máscara impassível. Não disse nada sobre a traição, não ofereceu uma palavra de conforto ou choque. A sua falta de reação foi mais condenatória do que qualquer acusação. Ela sabia. Ou, pelo menos, suspeitava de algo.
"A tua relação pessoal com Emi complicou uma situação de segurança nacional, Kakashi", disse ela, a sua voz agora fria e oficial. Ela estava a retirar-lhe o direito de sentir. Estava a transformá-lo, mais uma vez, numa ferramenta. "Ela não estava a visitar família nenhuma."
"O que é que ela estava a fazer?", ele exigiu, a formalidade a desfazer-se.
Tsunade ignorou a pergunta. De uma gaveta, retirou um outro pergaminho. Este era oficial, selado com o brasão de Konoha. Empurrou-o pela secretária na sua direção.
"Isto é o que ela estava a fazer. E isto é o que tu vais fazer agora."
Era uma ordem de missão. O seu nome estava no topo: Hatake Kakashi. Objectivo: localizar a informadora desaparecida, codinome 'Oriole', no País do Ferro. Avaliar a sua lealdade. O nome real dela estava entre parênteses, como uma nota de rodapé na história da sua própria traição.
"As tuas ordens são claras", continuou Tsunade, o seu olhar a cravá-lo no lugar. "Trazê-la de volta para interrogatório, se possível. Se a captura não for uma opção..." Ela não precisou de terminar a frase. A palavra "neutralizar" pairava no ar entre eles, invisível e pesada como uma bigorna.
Kakashi pegou no pergaminho da missão. O papel era áspero sob a sua luva. Ele viera à procura de respostas sobre a mulher que amava. Saía com uma ordem para caçar uma traidora que tinha o rosto dela. O mundo pessoal que ele cuidadosamente construíra à volta deles tinha sido demolido e substituído por ordens de marcha e pela lógica fria da aldeia. Olhou para o pergaminho na sua mão, o seu nome e o dela ligados não por afeto, mas por dever e suspeita. Já não era o seu coração que estava partido; era a sua realidade.