NarutoRomance

    A Geometria da Memória

    O seu apartamento recebeu-o com a indiferença de sempre. Era um espaço de linhas retas e superfícies vazias, o oposto do caos acolhedor de Emi. Aqui, a ausência dela não era um grito, como no apartamento abandonado; era um eco subtil num lugar já demasiado silencioso. Cada objeto estava no seu lugar, imaculado, funcional. Uma vida arrumada em compartimentos, como o seu equipamento de missão. Era altura de arrumar mais um.

    O ritual começou. Sobre a madeira escura do chão, ele dispôs as ferramentas do seu ofício. Kunai, polidas até brilharem com uma luz fria. Shuriken, cujas pontas afiadas pareciam pequenas promessas de dor. Etiquetas explosivas, dobradas com uma precisão matemática. Pílulas de soldado, rações, um kit médico básico. As suas mãos moviam-se com uma economia de movimentos que vinha de anos de prática, uma memória muscular que não precisava da sua mente. Era reconfortante. Era oco.

    A mochila estava quase pronta. Faltava apenas uma coisa. O seu olhar desviou-se para a pequena cómoda de madeira ao lado da sua cama. A gaveta de cima rangeu um pouco ao abrir. Lá dentro, por baixo de um conjunto de luvas suplentes, estava ela. A fotografia.

    Estava gasta nas pontas, dobrada e desdobrada tantas vezes que a imagem começara a desvanecer-se nas dobras. Tinha-a tirado no festival de verão, há dois anos. Emi ria, o rosto iluminado pelas lanternas de papel, uma mecha de cabelo escuro colada à têmpora húmida. A sua mão estava estendida, a tentar puxar-lhe a máscara para baixo. Ele resistia, mas o seu olho visível, o único que a câmara captara, estava enrugado nos cantos. Um sorriso que ela sempre dissera poder ouvir.

    Ele lembrou-se do sabor do dango, pegajoso e doce na sua língua. Lembrou-se do som do riso dela a misturar-se com o toque dos sinos de vento. Naquele momento, ele não era o Jounin de elite, o antigo capitão da ANBU. Era apenas um homem, a partilhar um momento de paz com a mulher que amava. A fotografia era o seu amuleto da sorte. Tinha-a levado em todas as missões desde então. Um lembrete de que havia um lugar para onde voltar, uma razão para sobreviver.

    Agora, o calor da memória era como a carícia de um fantasma.

    Os seus olhos, treinados para detetar a mais pequena anomalia, percorreram a imagem com uma nova e terrível intenção. *Codinome: Oriole.* Quando é que ela se tornara Oriole? Já o era, naquela noite? O seu riso era genuíno ou uma performance? O seu toque era afeto ou a recolha de informações? Ele nunca lhe contara nada classificado, claro, mas a sua proximidade a ele... isso, por si só, era uma informação valiosa. Uma fraqueza a ser explorada.

    *O País do Ferro. Neutro. Samurai.*

    Recordou conversas que pareciam insignificantes na altura. Emi a falar da sua admiração pelo código rígido do samurai, um contraste com o que ela chamava de "a flexibilidade moral" dos shinobi. Ele descartara isso como uma curiosidade intelectual. Agora, cada palavra era um marco numa estrada que levava diretamente a este momento. Ela queixara-se uma vez da forma como Konoha se via como o centro do mundo, cega às ambições das nações mais pequenas. Ele tinha concordado, em parte. Tinha sido uma conversa de amantes, tarde da noite, ou uma sondagem de um agente inimigo?

    A traição dela era uma faca. Mas a ideia que se formava agora na sua mente era um veneno lento. Tsunade. O seu rosto cansado e duro sobrepôs-se ao de Emi na fotografia. A Hokage sabia que Emi era 'Oriole'. Há quanto tempo? Será que Tsunade sabia da relação deles desde o início? Será que a permitiu, vendo-a como um ativo? Ou tolerou-a, vendo-a como uma complicação perigosa? A possibilidade de ter sido usado não apenas por Emi, mas pela sua própria aldeia, pela sua própria líder, instalou-se no fundo do seu estômago como um pedaço de gelo. A lealdade que ele sempre considerara inabalável sentiu, por um instante, o peso de uma corrente.

    A fotografia na sua mão já não era um porto seguro. Era um mapa do território inimigo. Um ficheiro de informações sobre os métodos de infiltração emocional do alvo. Era uma fraqueza que ele não podia permitir-se. Um Jounin em missão não tem espaço para amuletos da sorte.

    Ele moveu-se para a guardar de volta na gaveta. Para deixar para trás o homem daquela fotografia. Mas os seus dedos pararam. Não. Ele precisava dela. Não para conforto. Não para força. Para clareza.

    Ele precisava de se lembrar daquele rosto. Precisava de estudar aquele sorriso, de memorizar a luz naqueles olhos, para nunca mais se esquecer do quão perfeita pode ser uma mentira. Para se lembrar que a mulher que ele tinha de encontrar não era a que estava na fotografia. A mulher na fotografia estava morta, mesmo que Emi ainda respirasse.

    Com um movimento deliberado, ele deslizou a pequena imagem gasta para o bolso interior do seu colete de proteção, sobre o coração. Não assentou lá como um talismã. Assentou como um peso, frio e duro. Um lembrete constante das duas missões: a que Tsunade lhe dera e a que ele acabara de dar a si mesmo. Descobrir como a mulher que ria sob as lanternas se tornara o nome numa ordem que podia muito bem ser de execução.

    Kakashi fechou o fecho de correr do colete. O som cortou o silêncio do apartamento, final e absoluto. O homem que amava Emi tinha sido deixado para trás, na gaveta vazia. O que partia agora era apenas Hatake Kakashi, shinobi de Konoha. E ele estava pronto.

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