O aroma adocicado da bebida barata misturava-se com o suor de corpos em movimento e um estranho cheiro de desinfetante floral, daquele que as escolas usam. Isso sempre me irritou. Não pela bebida fraca que prometia festa e entregava dor de cabeça, nem pela mistura de perfumes baratos que os garotos escolhiam, mas pelo desinfetante. Minha avó costumava esfregar o chão da cozinha com algo parecido, e o cheiro trazia à tona a visão dela, velha e cansada, curvada sobre um esfregão. Festas deveriam ter cheiro de liberdade, de algo novo, não de rotina exaustiva. Encolhida no canto mais escuro do salão, com uma limonada que mal disfarçava o álcool, eu observava o caos. A música pulsava, martelando minhas têmporas, e a luz estroboscópica pintava rostos estranhos por frações de segundo.
Eu havia passado a maior parte da noite ali, sentindo-me uma espécie de objeto decorativo indesejado, um móvel que alguém esqueceu de tirar antes da festa começar. Não que eu não gostasse de festas, mas preferia as que tinham um sofá macio, música em volume decente para conversar e talvez um jogo de tabuleiro. Essa, com seus decibéis infernais e a necessidade de gritar para ser ouvida, era o oposto disso. Meus pés já doíam dentro dos sapatos novos – uma escolha terrível, eu admito. Aquele salto fino parecia ter sido projetado para tortura medieval.
"Perdida no labirinto?" A voz surgiu ao meu lado, calma, mas perfeitamente audível acima do barulho. Levei um susto, um pequeno sobressalto que me valeu uma gota de limonada na blusa. Excelente.
Olhei para o lado. Pedro. Arrumado como sempre, camisa impecável, um sorriso que desarmava. Um daqueles sorrisos que pareciam ter saído de um anúncio de pasta de dente, mas de um jeito que você realmente acredita na eficácia do produto. Ele segurava um copo, que parecia conter apenas gelo e algo translúcido. Ele tinha esse hábito de ser o único que conseguia se mover por um ambiente caótico como se estivesse em um salão de chá tranquilo.
"Ouvi dizer que o Minotauro vive aqui, então sim, um pouco", respondi, tentando soar divertida, mas sentindo o rubor nas minhas bochechas. Sempre fui um pouco dramática, e a timidez, bem, ela insistia em se manifestar nos momentos menos oportunos.
Ele riu, o som morno. "É um labirinto interessante, sem dúvida. Mas você parece a única que não está tentando bater de frente com as paredes."
"Eu prefiro observar. E meus sapatos não foram feitos para confrontos diretos com o chão. É um milagre que ainda não quebrei um salto." Mencionei, levantando um pé, mostrando a obra de arte que estava me assassinato silenciosamente. Ele pareceu prestar atenção aos detalhes, um gesto que era raro nas festas.
"Você escolheu uma missão perigosa, então", disse ele, os olhos percorrendo o salão. "Para ser justa, a maioria aqui parece estar lutando contra os próprios pés."
Um estranho silêncio se estabeleceu. Não um silêncio total, a música ainda era uma muralha sonora, mas uma pausa na nossa conversa, onde eu podia sentir o olhar dele. Não era um olhar de julgamento, mais de curiosidade. Achei que ele fosse seguir o fluxo e se juntar aos outros, mas ele permaneceu.
"Não parece muito com a sua praia, esse tipo de lugar", observei, um pouco apreensiva. Era um comentário direto demais? Ele poderia se ofender.
Pedro balançou a cabeça. "Não é mesmo. Fui arrastado por alguns amigos. Achei que valeria a pena uma olhada, mas... é um pouco intenso. Pensei que você estivesse aqui pelo mesmo motivo", ele acrescentou, indicando meu canto isolado.
"Meus amigos acham que eu preciso 'sair mais'", usei aspas com os dedos, "e para 'sair mais' significa vir a um lugar onde eu não consigo ouvir meus próprios pensamentos." Eu sorri com a ironia. Ele retribuiu.
"Os pensamentos são as melhores companhias, às vezes", Pedro disse, um brilho nos olhos. "Principalmente quando se está em um mar de ruído."
Eu não sabia o que dizer. Poucas pessoas entendiam a necessidade de um bom pensamento silencioso no meio da balbúrdia. A maioria achava que era sinal de isolamento. Era revigorante encontrar alguém que parecia... compreender.
"É uma bênção e uma maldição, não é? Ter uma mente que não desliga", comentei, baixinho. "Estou sempre criando roteiros. Neste exato momento, estou imaginando um musical sobre a vida de um limão. É mais interessante do que o que está acontecendo aqui."
Pedro soltou uma risada, desta vez mais alta, e uma chama de diversão dançou em seus olhos. "Um musical sobre um limão? Você precisa me contar mais sobre isso."
"A protagonista é uma limoeira que sonha em ser um sorvete gourmet, mas a família dela só cultiva limões para suco de caixinha barato", comecei, já embalando na minha fantasia, sentindo a timidez desvanecer, substituída pelo prazer de compartilhar uma de minhas criações. "Há uma rivalidade com a família das laranjas, que se acham superiores. É uma parábola sobre expectativas sociais e o real valor de si mesmo."
Ele ouvia, realmente ouvia, com o tipo de atenção que eu raramente recebia ao divagar sobre minhas ideias loucas. Seus olhos estavam fixos em mim, não varrendo o ambiente como a maioria das pessoas fazia. Era um sinal de respeito, de alguma forma. E isso era raro.
"Isso é genial", Pedro disse. O elogio sincero me fez sentir uma pontada de cor. "Sério. Tem um antagonista? Um vilão da indústria de refrigerantes?"
"Claro! Um CEO maquiavélico que quer roubar a receita secreta de torta de limão da família para seus produtos artificiais", expliquei, gesticulando um pouco demais, quase derrubando meu copo vazio.
"Cuidado aí, a trama está esquentando", ele brincou, oferecendo um sorriso. "Eu pagaria para ver esse musical."
De repente, a música mudou, diminuindo um pouco o volume. Uma daquelas baladas pop genéricas começou a tocar, e alguns casais tortos começaram a se arrastar para o centro do salão. Eu senti um arrepio. Não sou fã de dançar se não for para rir de mim mesma.
"Essa é a parte em que as pessoas tentam dançar como se estivessem em um videoclipe de 1990", comentei, fazendo uma careta.
"Ou a parte em que você percebe que a noite está prestes a ficar insuportável", Pedro completou, com uma expressão igualmente divertida. Ele parecia ler meus pensamentos. Não, mais do que isso. Parecia que ele *sentia* o mesmo que eu.
Foi então que notei algo. Há um pequeno grupo de pessoas reunidas perto da saída de emergência, olhando furtivamente para o interior do salão. Eles não estavam dançando, nem socializando. Estavam observando. E um deles, um homem em particular, tinha uma cicatriz acima do olho esquerdo que me pareceu estranhamente familiar. Não familiar de um jeito bom.
Minha mente pulou do musical do limão para um alerta silencioso. Ele não estava olhando para a festa. Ele estava olhando para *nós*. Ou para mim? Uma sensação de desconforto invadiu meu estômago. Eu não o conhecia. Ou conhecia? A lembrança picou na ponta da minha mente, sem se revelar completamente.
"Eu posso estar enganada, mas acho que acabamos de atrair a atenção errada", murmurei para Pedro, apontando com a cabeça para o grupo.
Ele seguiu meu olhar, e seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão mais séria. Ele não disse nada, mas seus olhos estreitaram. A música lenta e a conversa suave foram esquecidas.
Há algo ali, pairando no ar, a um passo de ser revelado.