Amor doceGeneral

    A Curva Inesperada do Rio

    by Emo Trevoso

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    O ônibus parou com um suspiro anêmico, expelindo Felipe Isamu na calçada úmida. O céu cinzento de Paris não combinava com o verde exuberante que ele havia trocado, mas ao menos o cheiro de ozônio e asfalto fresco era uma mudança bem-vinda em relação à poeira do interior. Ajustou a mochila leve nos ombros, o peso do pequeno dado de metal polido que usava para focar a atenção batendo suavemente contra sua costela através do tecido da camisa. Não entendia a obsessão das pessoas por “novos começos”; a vida era um fluxo contínuo, e cada parada era apenas um desvio, não um ponto final. O portão de ferro forjado da Sweet Amoris o encarava, imponente e ligeiramente enferrujado nas dobradiças. Uma estrutura previsível: dois lados, um topo, um meio que permitia a passagem. Simples.

    Ele tirou um dos fones, o fluxo de uma música sem letras, apenas texturas sonoras, diminuiu. A papelada amassada na mão, sua ficha de inscrição, era o último elo com a burocracia que odiava. Foto, assinatura, e um clipe. O clipe era o mais crítico; sem ele, as folhas se dispersariam como folhas mortas ao vento, e ele não suportava a desorganização. Sua mente já traçava um mapa mental do percurso para encontrar a secretaria, baseando-se nas poucas informações visuais que absorvera da fachada externa do prédio. Edifícios com essa arquitetura geralmente tinham a administração centralizada. Eficiência. Era disso que ele precisava.

    Um vulto vermelho se aproximou, emanando uma aura de cansaço contido. Kentin. O sorriso que desabrochou no rosto do garoto era uma perturbação agradável na sua neutralidade habitual. "Felipe! Você chegou! Achei que tinha se perdido com todas essas ruas." Kentin, ele parecia um filhote de pastor-alemão, sempre alegre. Isso trazia um pequeno, quase imperceptível, afrouxamento na armadura de Felipe.

    "Não me perdi. As ruas seguem um padrão, Kentin. A navegação é lógica." Felipe respondeu, sua voz calma e sem modulação, um contraste com a euforia do amigo. "Você está adiantado." Embora apreciasse a consideração, o que ele precisava era de um clipe de papel.

    Kentin assentiu, alheio à pequena correção, e ofereceu um pacote de biscoitos de aveia que Felipe, surpreendentemente, aceitou. Era raro ele gostar de doces, mas os de Kentin tinham algo... orgânico. "Ah, sim. Fiquei ansioso. E trouxe para você. Lembrei que gosta dos meus biscoitos."

    "Isso é observação." Felipe pegou um biscoito, sentindo a textura granulada. Aquilo sim era eficiência. "Você sabe onde consigo um clipe? Minha ficha está incompleta."

    Kentin enfiou a mão no bolso traseiro da calça. "Uhm, não tenho nenhum aqui... Mas a Natália, na secretaria, sempre tem. Ou o Nathaniel do grêmio, ele é um craque com organização. Deve estar no corredor principal, perto dos armários." Ele apontou com a cabeça para o interior do prédio.

    Felipe acenou, já processando a informação. "Grêmio. Entendi." Ele não esperaria por alguém para resolver um problema tão simples. "Você vem comigo?"

    "Ah, não posso agora, Felipe. Tenho que... uh... ajudar a arrumar os balões para a festa de boas-vindas. Da turma. Mas te encontro depois do almoço?" Kentin pareceu um pouco hesitante, como se houvesse algo mais, mas a naturalidade de Felipe em aceitar a explicação não o encorajou a elaborar.

    "Certo. Almoço." Felipe repetiu, já se virando para o interior do colégio, a prioridade do clipe sobrepondo qualquer outra interação. Ele gostava de Kentin, mas a festa de balões parecia uma distração sem propósito. A Sweet Amoris era, como esperado, um ninho de estímulos. Cores berrantes de cartazes, o burburinho de vozes juvenis, o cheiro misturado de desinfetante e perfume barato. Felipe apertou o dado na mão por um instante. Não era sobrecarga, ainda não, mas o limite era uma linha tênue.

    Ele virou o corredor que Kentin indicara, o som de risadas abafado pela parede de armários azuis. Um grupo de garotas pintadas demais para a manhã sussurrava e ria alto. Felipe as ignorou com a destreza de quem treinou a vida toda para isso. A secretaria, ele esperava, seria um oásis de silêncio e ordem.

    Contudo, ao dobrar a esquina, a cena que se deparou era anything but ordeira. Havia um garoto encostado a um dos armários, com cabelos vermelhos que pareciam gritar a própria cor, e uma jaqueta de couro que não combinava com o clima instável. Castiel, sem dúvida. Ao lado dele, um outro garoto, mais alto e de cabelos quase brancos, folheava um caderno de capa escura com uma diligência quase ritualística. Este deveria ser Lysandre.

    Castiel estava usando uma voz que soava como um arranhão em um disco, enquanto resmungava: "Qual é, Lysandre? Vai ficar a manhã toda decifrando sua própria caligrafia? A gente combinou de ir no pátio."

    Lysandre, sem levantar a cabeça, respondeu em um tom melódico, quase um murmúrio: "Estou procurando a letra daquela música. Tenho certeza de que a anotei aqui. Há um verso que me escapa."

    A interação não era sobre ele, mas os decibéis de Castiel estavam beirando o desconfortável. Felipe parou a uma distância estratégica, observando. Castiel, o caos; Lysandre, a forma. E ele, o ajuste. Uma melodia.

    Isamu, com sua expressão neutra, se aproximou. Ele não gostava de interromper conversas, mas a proximidade da secretaria e a necessidade do clipe eram prioridades. "Com licença."

    Castiel virou a cabeça abruptamente, os olhos cinzentos faiscando com uma mistura de surpresa e impaciência. Ele parecia um predador acostumado a impor sua presença, e a interrupção era um desafio silencioso. Lysandre, por sua vez, apenas ergueu os olhos azuis-esverdeados do caderno, uma lentidão quase etérea em seus movimentos.

    "O que você quer?" Castiel rosnou, o tom beligerante. Ele não se deu ao trabalho de se endireitar, apenas inclinou a cabeça, estudando Felipe como se ele fosse um problema matemático irritante.

    Felipe não se abalou. "Estou procurando a secretaria. Preciso de um clipe para minha ficha de matrícula." Ele estendeu a mão, mostrando os papéis. "Kentin disse que um de vocês deveria saber. Ou a Natália."

    Lysandre acenou levemente com a cabeça, um gesto quase imperceptível. "A secretaria fica no final do corredor, à esquerda. Nathaniel, do grêmio, geralmente tem suprimentos. Ele está lá." Sua voz era suave, em contraste direto com a de Castiel.

    Castiel bufou, um som de desdém. "Clipes? Sério? Você interrompeu a gente por um clipe?" Contudo, ele não fez nenhum movimento para bloquear o caminho. Havia algo na calma de Felipe que parecia desarmá-lo, ou talvez apenas o intrigasse.

    "Padrão de eficiência. Evitar a perda de documentos é fundamental para um bom funcionamento administrativo." Felipe afirmou, como se estivesse explicando um teorema. Ele estava prestes a seguir seu caminho quando uma ideia, um pequeno desvio da eficiência pura, lhe ocorreu. "Você, Castiel. Sua banda. Você faz músicas?"

    Castiel piscou, visivelmente pego de surpresa pela pergunta inesperada, o fogo em seus olhos diminuindo para uma brasa. "Sim. Qual o problema?" Sua postura defensiva, no entanto, não relaxou.

    Felipe olhou para Lysandre, seu olhar se demorando no caderno de anotações. "Ele parece procurar algo que se perdeu. A melodia ou a letra. Se vocês trabalham juntos, talvez possa ajudá-lo a encontrar." Ele não esperou por uma resposta, virando-se e seguindo para a secretaria. Lysandre o observou partir, um ligeiro sorriso quase tocando seus lábios. Castiel, no entanto, ficou parado, a expressão um misto de confusão e uma curiosidade inesperada. O que diabos era aquele cara? E por que ele não tinha gritado?

    Dentro da secretaria, o zumbido do ar condicionado era um alívio. Uma jovem de cabelos castanhos e uma pilha de documentos idênticos aos seus na mesa estava ali, olhando fixamente para um computador. Ela parecia organizada. Ele não precisava de um clipe apenas. Precisava de informação. Que tipo de escola era essa?

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